home

search

A casa verde

  07/09/2020 - mexico

  A Cidade do México nunca dorme de verdade. Mesmo à tarde, o ar parecia pesado, carregado de fuma?a, poeira e um zumbido constante de buzinas, vozes e motores. Cada esquina era viva demais energia demais para um lugar que escondia tanta coisa morta por baixo.

  Eu dirigia com uma m?o só, a outra apoiada no volante, enquanto Mateus ficava em silêncio no banco do passageiro. Desde que saímos do apartamento, ele quase n?o falara. Olhava pela janela como quem procura algo que n?o quer encontrar.

  " N?o precisa se for?ar a lembrar tudo de uma vez " falei, quebrando o silêncio. " às vezes, o corpo lembra antes da cabe?a."

  Ele assentiu devagar.

  " é estranho… " disse " …quanto mais perto a gente chega, mais eu sinto um nó aqui.

  Ele bateu de leve no peito n?o é medo é mais como se algo puxasse."

  Aquilo n?o era normal.

  E definitivamente n?o era só trauma.

  Segui o caminho que ele indicara: avenidas congestionadas, ruas mais estreitas, prédios antigos misturados com constru??es novas, tudo empilhado de forma caótica, como se a cidade tivesse crescido à for?a. Quando nos afastamos das vias principais, o som diminuiu n?o sumiu, mas ficou abafado, quase desconfortável.

  " é por aqui… " Mateus murmurou.

  Estacionei a algumas quadras do ponto exato. Nunca se estaciona em frente ao alvo. Regra básica.

  Descemos do carro. O calor grudou na pele de imediato. O bairro era simples, casas geminadas, port?es baixos, algumas crian?as brincando na rua, vendedores ambulantes gritando ofertas que eu n?o entendia completamente. Um lugar comum demais.

  E era isso que o tornava perfeito.

  " Lembra de algo daqui? " perguntei.

  Mateus fechou os olhos por um momento.

  " O cheiro é igual…"

  " Igual a quê?"

  " Poeira quente. E… produto de limpeza barato."

  Ele abriu os olhos e apontou para frente. " é aquela."

  Segui o dedo.

  A casa parecia abandonada à primeira vista: dois andares, pintura verde claro descascando, port?o torto de metal enferrujado. Havia grades nas janelas, algumas tortas, outras empenadas como se tivessem sido arrancadas à for?a e recolocadas às pressas. Antiga, mas n?o velha o suficiente para ser esquecida.

  " Fica atrás de mim " falei, ajustando o sobretudo para esconder a pistola e puxei um das cartas do meu baralho o valete de ouro. Qualquer coisa estranha, você para.

  Aproximei-me do port?o. N?o estava trancado. Isso já era um problema.

  Empurrei devagar. O rangido do metal soou alto demais para o meu gosto.

  O quintal era pequeno. Terra batida, algumas plantas secas, lixo acumulado em um canto. Nada que denunciasse o que acontecera ali mas nada que inocentasse também.

  If you encounter this tale on Amazon, note that it's taken without the author's consent. Report it.

  Mateus parou abruptamente.

  " Aqui… " a voz dele saiu fraca.

  " O quê?"

  " Eles nos traziam por aqui."

  Ele apontou para a lateral da casa, onde uma porta estreita dava acesso ao interior.

  Meu est?mago se revirou.

  Usei o Selo de Refra??o de forma sutil. N?o liberei energia; apenas deixei a percep??o escorrer como água. O ar estava sujo. Havia resíduos energéticos antigos, fracos, quase apagados como pegadas depois da chuva.

  " N?o tocou nisso sozinho, tocou? " perguntei.

  Mateus balan?ou a cabe?a.

  " N?o… mas eu sinto. é como se o ch?o estivesse… lembrando."

  Entramos.

  O interior da casa estava escuro, apesar da luz que entrava pelas frestas das janelas. O ar era abafado, pesado, com aquele cheiro específico de lugar fechado por tempo demais. Piso de ceramica rachado, paredes manchadas, marcas de algo que fora limpo às pressas.

  No corredor estreito, lampadas amarelas pendiam do teto, algumas quebradas.

  Mateus levou a m?o à cabe?a.

  " O relógio… " murmurou.

  " Que relógio?"

  Ele apontou para uma marca circular na parede, acima de um prego torto.

  " Ficava ali. Fazia barulho toda hora. Eu odiava aquele som."

  Seguimos até o fundo. Uma porta trancada chamava aten??o. Diferente das outras, refor?ada.

  Ajoelhei e examinei a fechadura.

  " Eles n?o queriam que vocês saíssem… " murmurei. " Queriam que ninguém entrasse."

  For?á-la n?o foi difícil. A madeira cedeu com um estalo seco.

  O c?modo era pequeno demais para conter tantas memórias. N?o havia mais nada ali apenas correntes presas às paredes, o ch?o manchado, marcas de arrasto.

  Mesmo vazio, o lugar parecia gritar.

  Mateus entrou atrás de mim.

  E congelou.

  " Foi aqui " disse, com a voz quebrada. " Foi aqui que tudo come?ou."

  Olhei ao redor, sentindo o peso invisível do que fora feito ali.

  N?o era só uma casa.

  Era um laboratório improvisado.

  Uma jaula.

  E, pela primeira vez desde que cheguei ao México…

  eu tive certeza absoluta:

  O que quer que tivesse despertado em Mateus n?o foi um acidente.

  Foi criado.

  Por algum motivo… Mateus estava me olhando diferente.

  N?o era medo comum.

  N?o era choque.

  Era panico puro.

  " Mateus…? " chamei, virando o rosto para ele. " O que foi?"

  Ele abriu a boca, tentou dizer algo, mas nenhum som saiu. Os lábios tremiam. Os olhos estavam arregalados, fixos em mim como se eu já estivesse morto.

  E ent?o eu senti.

  Frio.

  N?o um frio de ambiente.

  Era interno. Profundo. Como se o ar tivesse atravessado minha carne e se instalado dentro do peito.

  Baixei os olhos.

  Um bast?o de a?o atravessava meu tórax.

  Entrava pelas minhas costas e saía pelo centro do peito, rasgando sobretudo, camisa, carne. O metal estava sujo de vermelho ,o meu sangue escorria em gotas grossas, batendo no ch?o com um som seco que parecia ecoar pela casa inteira.

  " …ah… " o som saiu de mim sem controle.

  Minhas pernas falharam um passo. O mundo perdeu foco por um segundo. Depois voltou… torto.

  O calor do meu corpo sumia rápido demais. Cada batida do cora??o parecia errada, fraca, descompassada. Tentei puxar ar o pulm?o n?o respondeu direito. O gosto de ferro tomou minha boca.

  " A-Alex… " a voz do Mateus finalmente saiu, quebrada. " E-eu… atrás de você…"

  Atrás de mim.

  Eu tentei virar. N?o consegui. O corpo n?o obedecia. O Selo de Liga??o n?o ativava. O Selo de Conten??o n?o respondia. Era como se todos tivessem sido desligados ao mesmo tempo.

  Como se algo tivesse silenciado a Energia U dentro de mim.

  Minha vis?o escureceu nas bordas.

  " Fica… atrás de mim… " tentei dizer, mas a frase morreu no meio.

  O bast?o se mexeu.

  A dor veio atrasada, esmagadora, arrancando um grunhido que n?o parecia meu. As m?os tremiam. Meus joelhos bateram no ch?o. O impacto fez o metal vibrar dentro do meu corpo.

  Senti o ch?o frio contra a palma da m?o.

  Senti o sangue formando uma po?a.

  Mateus chorava. Mas o som parecia distante, como se estivesse debaixo d’água.

  " Alex, n?o… n?o foi assim antes… eles nunca… " ele engasgou. " Eu n?o senti ninguém… eu juro…"

  Nem eu.

  Esse era o problema.

  Nenhum aviso.

  Nenhum reflexo energético.

  Nenhuma leitura.

  A casa estava vazia… mas alguém esperava.

  O teto girou lentamente acima de mim. As lampadas amarelas pareciam estrelas morrendo. O som da cidade do México voltou aos poucos buzinas, vozes, vida t?o distante daquele por?o.

  Engra?ado.

  Eu passei dias rastreando monstros.

  E caí por uma lamina silenciosa, invisível.

  Meu cérebro come?ou a desligar. N?o foi rápido. Foi como luz sendo apagada c?modo por c?modo.

  Minha última vis?o foi o rosto do Mateus assustado, manchado de lágrimas… e algo mais.

  Algo se movia nele.

  Algo acordando.

  Ent?o a escurid?o fechou de vez.

  E a casa ficou em silêncio outra vez.

Recommended Popular Novels